quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Infantolatria: as consequências de deixar a criança ser o centro da família


Além das complicações na vida dos filhos, como dificuldade de socialização e insegurança, deixar a criança comandar a dinâmica familiar pode prejudicar – e muito – o casal

Getty Images
“Um bebê não tem poder para determinar como será a dinâmica familiar. Se isso acontece, é porque os pais promovem”, afirma psicanalista
As atividades da família são definidas em função dos filhos, assim como o cardápio de qualquer refeição. As músicas ouvidas no carro e os programas assistidos na televisão precisam acompanhar o gosto dos pequenos, nunca dos adultos. Em resumo, são as crianças que comandam o que acontece e o que deixa de acontecer em casa. Quando isso acontece e elas já têm mais de dois anos de idade, é hora de acender uma luz de alerta. Eis aí um caso de infantolatria.
“O processo de mudança nos conceitos de família iniciado no século 18 por Jean-Jacques Rousseau [filósofo suíço, um dos principais nomes do Iluminismo] chegou ao século 20 com a ‘religião da maternidade’, em que o bebê é um deus e a mãe, uma santa. Instituiu-se o que é uma boa mãe sob a crença de que ela é responsável e culpada por tudo que acontece na vida do filho, tudo que ele faz e fará. Muitos afirmam que a mulher venceu, pois emancipou-se e foi para o mercado de trabalho, mas não: é a criança que entra no século 21 como a vitoriosa. Esta é a semente da infantolatria”, explica a psicanalista Marcia Neder, pesquisadora do Núcleo de Pesquisa de Psicanálise e Educação da Universidade de São Paulo (Nuppe-USP) e autora do livro “Déspotas Mirins – O Poder nas Novas Famílias”, da editora Zagodoni.
Em poucas palavras, Marcia define infantolatria como “a instituição da mãe como súdita do filho e o adulto se colocando absolutamente disponível para a criança”. E exime os pequenos de qualquer responsabilidade sobre o quadro: “Um bebê não tem poder para determinar como será a dinâmica familiar. Se isso acontece, é porque os pais promovem”.
Reinado curto
A verdade é que existe um período em que os filhos podem reinar na família, mas ele é curto. “Quando o bebê nasce e chega em casa, precisa ser colocado no centro das ações, pois precisa ser decifrado, entendido. Ele deve perder o trono no final do primeiro, no máximo ao longo do segundo ano de vida, para entender que existe o outro, com necessidades e vontades diferentes das dele”, esclarece Vera Blondina Zimmermann, psicóloga do Centro de Referência da Infância e Adolescência da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
A infantolatria ganha espaço quando os pais não sabem ou não conseguem fazer essa adequação da criança à realidade que a cerca e a mantêm no centro das atenções por tempo indefinido. “Em uma família com relacionamento saudável, o filho entra e tem que ser adaptado à dinâmica da casa, à rotina dos adultos”, afirma a psicóloga.

Segurança ou insegurança?
Na casa da analista contábil Paula Torres, é ao redor de Luigi, de cinco anos, que tudo acontece. Entre os privilégios do garoto estão definir o canal em que a TV fica ligada e o dia do fim de semana em que será servida pizza no jantar. “Acho importante a criança se sentir amada e saber que suas vontades são relevantes para a família”, opina.
Ela conta que seu marido, o também analista contábil Luiz André Torres, não gosta muito disso e constantemente reclama que o filho é mimado demais. “Mas bato o pé e defendo essa proteção. Quando o Luigi crescer, será mais seguro para lidar com os adultos, já que suas opiniões são levadas em consideração pelos adultos com quem ele convive desde já”, acredita.
Não é o que as especialistas dizem. “Se o filho fica no nível dos pais, acaba criando para si uma falsa sensação de poder e autonomia que, em um momento mais adiante, se traduzirá em uma profunda insegurança. Ele sentirá a falta de uma referência forte de segurança de um adulto em sua formação”, explica Vera.
Em uma família com relacionamento saudável, o filho entra e tem que ser adaptado à dinâmica da casa, à rotina dos adultos”
Marcia diz ainda que, ao chegar à idade adulta, esse filho cobrará os pais. “Ele olhará ao redor e verá outras pessoas se realizando independentemente dele. A criança que acha que o mundo tem que parar para ela passar não consegue imaginar isso acontecendo e não está preparada para lidar com a mínima das frustrações. Em algum ponto, acusará os pais de terem sido omissos”.
Para Vera, supervalorizar os pequenos e nivelá-los aos adultos “é o resultado de uma projeção narcísica dos pais nos filhos, que se veem nas qualidades que enxergam em suas crianças”. Marcia concorda: “Isso tudo tem a ver com a vaidade da mãe, que considera aquele filho uma parte melhorada dela própria e, por isso, a criatura mais importante do mundo”.
Os alertas do dia a dia
Muitas vezes, os pais não se dão conta de que estão tratando os filhos como reis ou rainhas, então precisam levar uns chacoalhões da realidade fora de suas casas. “Eles geralmente caem em si quando começa a sociabilização. A escola reclama porque o aluno não respeita as regras, a criança tem dificuldade para fazer amiguinhos porque as outras, com autoestima positiva, não querem ficar perto de alguém que ache que manda em todos”, aponta Vera.
Mesmo assim, ela ainda correrá o risco de não conseguir rever seus comportamentos devido a uma superproteção parental, adverte Vera: “Em alguns casos dá para ela se salvar, mas muitos pais preferem culpar o ‘mundo injusto com seu filho perfeito’, o que impede que ela entenda as necessidades dos outros e reforça seus problemas de inadequação para a adaptação social”.“Em um futuro bem imediato, as reações dos colegas podem fazer a criança perceber que precisa mudar. Ela se comportará com eles como faz com a família e receberá a não-aceitação como resposta. Terá de lidar com isso para ter amigos”, afirma Marcia.
E como fica o casal?
Além de todas as complicações causadas pela infantolatria na vida dos filhos, ela prejudica – e muito – o casal que a promove. “Na relação saudável, o casal continua sendo o mais importante na família mesmo com a chegada da criança. Se os pais mantêm o filho no centro por mais tempo do que o necessário, acabarão se afastando”, alerta Vera.
“Some o casal. O ‘marido’ e a ‘mulher’ passam a ser o ‘pai’ e a ‘mãe’. E se em uma casa a mãe é a santa e o filho é o deus, onde fica o espaço do pai?”, questiona Marcia. “Muitos tentam entrar, reconquistar seu espaço, mas outros simplesmente caem fora”, constata.
O futuro da infantolatria
Sabendo disso tudo, os pais têm condições de se preparar para evitar os estragos na criação dos filhos. Marcia conta que percebe que as pessoas têm encontrado em sua análise uma saída para a tirania infantil.
“Não sou adivinha, mas creio que o novo arranjo familiar, em que os pais também assumem funções na criação dos filhos e as mães seguem carreiras por prazer, vá ajudar a mudar o panorama, assim como os arranjos homoparentais que começam a ser mais comuns”, diz, para complementar: “Creio que todos os comportamentos continuarão existindo, mas temos a obrigação de trabalhar para reverter esse quadro. O filho não é o centro porque quer, mas porque o adulto permite”.
Vera enxerga o futuro da situação de forma um pouco diferente. “Nossa sociedade é muito apressada e, no geral, não dá espaço para a preocupação com o outro. Isso tende a potencializar esse tipo de problema, a naturalizar para a criança o fato de que ela é o que mais importa, como aprendeu em casa com o comportamento dos pais em relação a ela”, finaliza.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Para a boa forma, dormir pode ser mais eficaz do que malhar


  (Foto: Foto: Reprodução/Patrick Demarchelier)

Foi dormir depois da meia-noite e vai ter de acordar às 6 hs para correr? Se o objetivo for a boa forma, especialistas dizem que o melhor é ficar na cama, como você lê na matéria Melhor do que malhar, da edição de dezembro da Vogue Brasil. Entenda os mecanismos do corpo que justificam a escolha, na sequência.
 

Todos os dias, quando o sol se põe, os níveis de melatonina, neurotransmissor que dispara o sono, começam a aumentar, enquanto a concentração de cortisol, hormônio associado ao estado de alerta e ao estresse, cai paulatinamente. A liberação de serotonina, outro neurotransmissor que regula, além do sono, o apetite e o ritmo circadiano (mecanismo que ajusta o relógio biológico), também diminui, preparando o corpo para o repouso restaurador. O que nem todo mundo sabe, no entanto, é que além de reparador, o tempo que passamos dormindo tem enorme influência no ponteiro da balança. O organismo recupera tecidos e sintetiza vários hormônios durante as oito horas de sono (recomendação média para um adulto). A atividade é tão intensa nesse período que o corpo usa a maior parte das calorias que ingerimos durante o dia na chamada taxa metabólica de repouso, responsável por cerca de 70% de nosso gasto calórico.
 

"Diversas pesquisas indicam que quem dorme menos de cinco horas, a longo prazo, ganha um sobrepeso de 36% em comparação com quem dorme duas ou três horas a mais", afirma Eduardo Nunes Salles, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. De acordo com Luciana Palombini, especialista no assunto pelo Instituto do Sono da Unifesp, isso acontece porque dormir menos aumenta os níveis de grelina e diminui os de leptina, e a consequência é maior apetite. A leptina é um hormônio que estimula o gasto calórico, atuando no metabolismo da glicose e promovendo sensação de saciedade. Já a grenalina estimula o apetite.
  (Foto: Reprodução/Vogue Paris)
Há dois anos, uma pesquisa realizada pelo Women's Hospital, em Boston, comprovou que dormir pouco também pode desregular o metabolismo da glicose. No estudo, os participantes que dormiram apenas cinco a seis horas por noite, por uma semana, desenvolveram resistência à insulina, o que resultou em maior quantidade de glicose no sangue, em níveis próximos ao dos diabéticos. E não é só: "Dormir pouco eleva a concentração de cortisol, que estimula o acúmulo de gordura, especialmente a abdominal, podendo levar à obesidade", alerta Luciana. É por essas e outras que especialistas defendem que, às vezes, é melhor dormir algumas horas a mais que madrugar para malhar, já que os benefícios do exercício não vão compensar esse desequilíbrio hormonal.
 

Se o seu problema é pegar no sono, a alimentação certa pode ajudar – e, aqui, carboidratos não são vilões: grãos, mandioca, batata e cevada contêm triptofano, um percursos da serotonina que ajuda a embalar a noite. "Evite comer em excesso, especialmente gordura", ensina Heloisa Guarita, nutricionista e mestre em psicobiologia no Instituto do Sono da Unifesp. E pare de achar que um copo de vinho vai ajudar a dormir mais rápido: "Apesar da moleza que causa, o álcool vai interferir na qualidade do sono depois". Novos estudos apontam que a temperatura também tem papel importante no processo – o ideal é que o quarto esteja entre 15,5° e 20°. E não se esqueça do poder relaxante de terapias como acupuntura, meditação e massagem. (FLAVIA GALEMBECK)


sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Contra obesidade, EUA aprovam uso de 'marca-passo' para o estômago




A FDA, agência responsável pelo controle de produtos de saúde e drogas nos Estados Unidos, aprovou a comercialização de um aparelho de combate à obesidade que tem funcionamento parecido ao de um marca-passo, mas para o estômago.

Chamado de Maestro Rechargeable System, o aparelho é implantado cirurgicamente sob a pele do abdômen, com anexos fixados onde o esôfago se encontra com o estômago. Dali, ele causa interferências no nervo que controla o coração e a função digestiva.

A ideia é fazer com que diminuam os impulsos de fome que a pessoa sente mesmo após ter recebido a quantidade de alimento necessária, fazendo com que o paciente perca peso. Mas nem a FDA tem certeza se a tecnologia de fato funciona.

No documento de aprovação, divulgado pela NBC, a agência ressalta conhecer a teoria por trás do aparelho, mas que os mecanismos específicos que levariam a perda de peso devido ao uso da tecnologia são desconhecidos.

Foi o primeiro produto de combate à obesidade aprovado pela FDA em sete anos, e nos EUA este é um problema de saúde bem sério. Em testes, o aparelho reduziu apenas 8,5% do excesso de peso em um ano se comparado a pessoas que faziam tratamento com placebo e a agência quer que cheguem a pelo menos 10%.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Tamanho do pênis pode levar a obsessão por musculação, afirma estudo


Cientista aponta que pênis pequeno leva a excessos na academia
Uma pesquisa realizada pela Faculdade de Psicologia da Universidade Victória, de Melbourne, na Austrália, aponta que os homens se preocupam mais com a opinião de outros homens sobre a imagem de seus corpos, o peso ou o tamanho do pênis em relação ao que acha a parceira sexual.
Isso levaria os não tão dotados a trabalharem mais no ganho de massa muscular e na perda de gordura corporal para compensar as ‘perdas’.

Para chegar a conclusão, a cientista Annabel Chan Feng Yi entrevistou 738 homens pela internet, com idades entre 18 e 76 anos.
A pesquisa aponta que a preocupação dos entrevistados, principalmente com o tamanho do pênis, deixava a maioria insegura em ambientes onde outros homens poderiam vê-los frequentemente sem roupas, como vestiários de academia. O fenômeno é chamado pela especialista de “síndrome do vestiário”.
“A preocupação dos homens com o tamanho pouco tem a ver com o desempenho sexual. Na verdade, tem muito mais a ver com competição entre outros homens. A maioria sente insegurança em lugares que outros homens possam ver seu pênis, como em vestiários, mas se sentem seguros na cama”, resumiu a doutora Chan.
E ai, você é da turma dos caras de boa ou tem obsessão por academia?

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Relatos de exagero no culto ao corpo expõem risco de anabolizantes e dietas


Thiago Barbosa diz que chegou a tomar composto de anabolizantes usados em cavalos

Não basta eliminar aquela barriga de chope, fazer a sobrancelha, cortar barba e cabelo com estilo ou usar roupas elegantes. A imagem que muitos homens buscam para si mesmos precisa ter um corpo definido, cheio de músculos. E o problema para alguns é o risco a que eles se submetem para alcançar o que consideram um ideal de beleza.
Ao longo dos últimos dias, o UOL recebeu relatos de internautas sobre os limites da obsessão por um corpo perfeito. Entre as mensagens recebidas, uma parcela significativa foi enviada por homens, e muitos chamaram a atenção para os danos causados pelo uso de anabolizantes e por dietas e remédios encarados como um atalho para perder gordura.
"Cinco anos atrás, eu usava anabolizantes para que, ao treinar, tivesse um efeito legal. Fiquei viciado. Cheguei a usar um composto para cavalo", contou o assistente de negócios Thiago Barbosa, do Rio. "Usei muitos compostos proibidos. Porém, para quem usa muito, o resultado é desastroso no futuro."
"Um dia, tomei creatina em pó, e aí meus rins começaram a ter problemas. Tive excesso de cálculos renais, várias crises e duas cirurgias", acrescentou. "Atualmente, sofro ainda com dores, terei que operar novamente em 2015."
Além das consequências para a saúde, Thiago também teve de lidar com outros efeitos colaterais causados pelo uso de substâncias proibidas. No caso dele, a busca por mais músculos teve um resultado contrário do que ele esperava.
"A textura da minha pele não é mais a mesma. Com tanta toxina desses remédios, tive um aumento das crises de dermatite. Engordei, ganhei celulite e estrias, ou seja, tudo errado para um corpo perfeito", diz o morador de Bangu. "Tenho 26 anos e nunca mais utilizarei esses produtos."

Transtorno, vício e saúde

Muitas vezes, a insatisfação com o próprio corpo pode ser resultado de um outro problema, que também exige acompanhamento médico. Trata-se do transtorno dismórfico corporal, ou dismorfofobia, que ocorre quando uma pessoa tem uma preocupação obsessiva com um defeito pequeno, ou que sequer existe, em sua aparência física.
"Em geral, são as mulheres que têm mais este tipo de problema. Mas, mais recentemente, ele também tem aumentado entre os homens", afirma a psiquiatra Ana Gabriela Hounie. "Com a popularização do fisiculturismo e do uso de anabolizantes, até criaram um termo novo, que é a vigorexia, quando o cara é todo fortão, saradão, mas se olha no espelho e se acha esquálido."
A psiquiatra afirma que também há casos de pessoas viciadas em atividade física e, nessas situações, o que o determina o limite entre um hábito saudável e um problema de saúde é a sensação de prazer ou sofrimento que os exercícios proporcionam.
"O exercício físico pode viciar porque a liberação de adrenalina e endorfina é prazerosa", diz a médica. "O problema é quando isso foge do normal, e a pessoa prefere fazer exercícios em vez de sair para namorar ou ir ao cinema, por exemplo. Ela limita toda a outra parte da vida dela porque o exercício físico toma um lugar preponderante."
Arquivo pessoal
Vinicius Heltai diz que perdeu 45 kg sem usar nenhum remédio
Para o engenheiro Vinicius Heltai, 29, de São Paulo, a busca por um corpo saudável teve um final feliz.  Mas, antes, ele também sofreu com tentativas frustradas de eliminar gordura por meio de dietas e remédios que, segundo o paulista, "prometiam de tudo".
"Eu passava mal, perdia peso e ganhava rapidamente tudo de novo. Fui descobrir que somos o que comemos e como vivemos de um tempo pra cá", disse Vinicius, em relato enviado ao UOL pelo Whatsapp (11) 97500-1925. "Mudei meu ritmo de vida, perdi 45 kg com redução alimentar e sem remédio."
"Os remédios me traziam insônia, agitação, irritação e eu suava muito. Com as dietas, eu tinha fraqueza, perdia três, quatro quilos e não conseguia manter por mais de duas semanas. Voltava tudo", acrescenta o engenheiro. "Percebi que pequenas coisas faziam toda diferença."